quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Trecho do livro : De onde vem a calma

"Pela primeira vez eu tinha quem cuidasse de mim e não era contrária a isso. Onde quer que eu fosse ela me acompanhava, me apoiava. Era linda sua dedicação até nos pequenos detalhes, no nosso dia a dia. Quando tínhamos que sair, sempre tomava banho primeiro. Dizia que eu demorava, reclamava, mas não percebia que eu demorava de proposito, só pra vê-la sair enrolada no roupão, só pra vê-la andar nua pela casa decidindo o que vestir.

Eu ascendia um cigarro, sentava sobre a cama e assistia cada detalhe, cada peça de roupa posta. Primeiro a calcinha, depois o sutiã. Era lindo! Eu tinha os meus favoritos, o roxo com rendas pretas, o vermelho desenhado e o xadrez. Naquela pele morena... Era uma das visões mais bonitas que eu já tinha visto. Vestia sempre coisas lindas com pequenos toques particulares, detalhes que eu olhava e pensava: “Isso é tão ela”.

Depois tinha a maquiagem. Eu adorava vê-la colorir os lábios, realçar aqueles olhos castanhos... Ficava linda pra mim, ela dizia. Só pra me escutar dizer que ela estava linda e eu dizia. Não só porque ela estivesse, mas também pra ver aquele sorriso lindo que ela me dava quando eu dizia, aquele sorriso que acentuava a covinha que ela tinha no canto da boca, a mesma covinha que me servia de inspiração quando eu escrevia algum poema pra ela.

E me ajeitava sempre com tanto carinho, me fazia querer ficar linda pra ela também. Eu adorava o jeito feminino com que fazia isso, me dando atenção e sempre sabendo o que me faria gosto ou não. Ela cuidava de mim como se eu fosse ela. Dava pra ver nos seus olhos o melhor e esse melhor era pra mim, era sempre pra mim."

domingo, 15 de setembro de 2013

Bukowski

Quando eu conheci Bukowski, Lena veio junto, ou pouco antes, não sei bem como dizer. Primeiro Lena, depois o velho. Foi isso mesmo.

Quando conheci Lena dava pra notar toda a sujeira dela. Embora fosse uma mulher muito sofisticada, tudo que ela era estava sempre explícito. Eu era jovem e já escrevia alguns poemas, mas morava com a minha mãe ainda e os tempos eram difíceis. O que quero dizer é que Lena e eu tínhamos realidades opostas. É difícil pensar no que uma mulher como ela, casada com um figurão, morando metade do ano aqui e a outra metade em qualquer outro lugar do mundo que ela escolhesse, é difícil pensar no que uma mulher como ela poderia querer com alguém como eu. Diversão ou não, acho que ela serviu mais a mim do que eu a ela e como o que servi a ela foi sexo, deixemos assim para que eu não pareça tão presunçosa como de fato sou. 

Ela recebia pessoas para leituras em sua casa, boas leituras. Quando fomos apresentadas foi instantâneo o interesse. Passamos a leitura inteira nos olhando. Confiante de que a levaria pra cama esperei  no carro do lado de fora da casa tempo suficiente para que todos saíssem. Observei um a um ir embora, até o último. Eu ainda tinha o resto de uma garrafa de Whisky que roubei na cozinha, esperei mais uns minutos, o tempo de fumar um cigarro. Sai do carro com a garrafa de whisky, apaguei o cigarro no gramado e toquei a campainha. Ela abriu a porta.

- Entra, eu estava te esperando.

Pus a garrafa em cima do balcão do bar que ela tinha na sala. A Casa era grande, cheia de atrativos, belas pinturas, esculturas... E ela ficava bem, ali no meio de tudo aquilo. Era um complemento, como um vestido sexy. Fomos até a biblioteca, lá ela sentou em uma das poltronas e disse:

- Vamos! Leia pra mim um de seus poemas.

Ela cruzou as pernas, a saia do vestido subiu. Eu podia ver tudo de onde estava, essa era a intenção e isso me excitava.

- Posso acender um cigarro? – eu perguntei

- Fique a vontade.

Ascendi um cigarro, puxei o poema do bolso meio amassado e comecei a leitura. Ela levantou e veio na minha direção. Seu vestido era vermelho sangue bem justo, tão justo que dava pra ver em detalhes cada curva, o volume dos seios, os quadris... Não gaguejei, continuei. Ela abriu lentamente o zíper na lateral do vestido. Tirou as alças e foi deixando o vestido cair, eu ainda lia o poema. A lingerie era roxa com rendas pretas, ela foi tirando o sutiã, depois a calcinha e ficou completamente nua enquanto eu lia. Parei.

- Não, por favor, não pare!

Eu estava extasiada e sem fala diante daquele corpo nu a minha disposição tão fácil, tão dado. Me senti como um garotinho virgem, louco pra acabar com aquilo, ou louco pra começar.

- O nu te deixa nervosa? Vamos! Continue! – Ela pediu se inclinando para sussurrar ao pé do meu ouvido.

Continuei. Ela sentou-se sobre a mesa e ali bem em meio a alguns livros, poemas deixados da leitura, ela se tocava. Não precisei toca-la também para perceber que ela estava molhada, completamente molhada. Aquilo me paralisou novamente, eu não sabia se terminava o poema, se me jogava nos braços dela, nos seios, no sexo. Era algo que eu nunca imaginei que poderia viver.

- Por que parou? Vá até o fim!

Eu fui, terminei. Terminei pra começar e aquilo parecia um premio. Era como se eu merecesse aquele corpo, aqueles seios na minha boca, eu ainda posso sentir o gosto deles. Transamos ali no meio dos livros mesmo e depois no seu quarto, na banheira...

- Garota, você é gostosa! Exatamente como eu imaginei.

- Você imaginou?

- Eu sempre imagino. Imaginei você me comendo durante toda a leitura.

- Você é tão safada... Nunca imaginei algo assim.

- Então sua imaginação não é das melhores.

Eu a beijei. Olhei aquele quarto grande e luxuoso em volta. Toda aquela sofisticação... Mesmo com tudo, beija-la era como beijar uma puta barata. Isso é um elogio.

- O que achou da minha leitura?

- Boa.

- Só boa?

Ela se levantou, colocou o roupão florido, vermelho com azul. Não fechou. Pegou um cigarro, sentou na poltrona no canto do quarto, cruzou as pernas e ascendeu o cigarro. Ficou olhando pra mim.

- E então?

- Falta sexo, falta carne, falta vida e principalmente falta sujeira. É tudo muito certinho, muito bonitinho, não combina com você. Por mim eu jogava essa merda no lixo.

Fiquei furiosa. Minha vontade era de vestir minhas roupas e ir embora dali. Quem essa vadia pensa que é?  Ao invés disso levantei nua, peguei um cigarro, ascendi e fui até a janela. Fiquei olhando o jardim. Pensei: " Que merda, lá se foi mais uma chance!"

- Quer mesmo fazer isso garota?

- Eu já estou fazendo.

- Se já está fazendo, precisa fazer da maneira certa. – ela se levantou, pegou um pouco de Whisky pra nós e parou ao meu lado, em frente a janela e continuou. – Já leu alguma coisa de Bukowski?

- Uma amiga me falou sobre, mas nunca li.

- Eu vou te dar algumas coisas. Você precisa de um pouco de sacanagem, essa mesma sacanagem que você tem nos olhos, no toque e no jeitinho que deu de estar na cama certa. Você precisa disso na sua poesia.

- Ei, não transei com você por interesse.- A interrompi.

- A por favor! Não me decepcione! Eu estava começando a te levar a sério.

- Acha que todo mundo é como você?

- E como eu sou?

- Um puta barata.

- Eu tô começando a realmente gostar de você garota.

Comecei a vestir minhas roupas.

- Espera! Espera! Por que tanto orgulho?Você precisa de menos orgulho e mais oportunismo. Que mal há em aproveitar uma oportunidade tão deliciosamente?- Ela fez uma pausa e continuou. - Garota, você precisa entender algumas coisas.Não da pra ter pudores! Entende? Não importa em que tempo estejamos, por mais evoluídas que as coisas estejam, no fundo, eles acham sempre que literatura é coisa pra homem. Então se você é mulher e quer fazer isso tem que ter colhões, tem que fazer com que eles pensem que você tem um pau e quando se dão conta de que você não tem, eles caem aos seus pés. Mas antes disso você precisa mergulhar na sua própria sujeira, no seu submundo e se despir de tudo. Mais sexo! Ele sempre rege as boas histórias. Foda! Imagine! Foda! Crie!

Eu a agarrei. Estava completamente louca de tesão... Tirei o roupão dela e a joguei na cama. Ela quis ficar por cima, eu não deixei. A prendi entre o meu corpo e aqueles lençóis macios, mas cheirando tanto a sexo quanto o de qualquer puteiro da Lapa. Juntei seus seios com as mãos e chupei. Ela gemia e me xingava.Pedia mais e eu a forçava agressiva. Pensei naquela foda como se fosse escrever, às vezes forçar pode ser gostoso.

Fodi com ela até não aguentar mais, até a exaustão completa. Sai daquela casa com o velho debaixo do braço e tudo aquilo que ela havia me dito. Pensei: ” Que foda gostosa!” Eu estava me tornando uma escritora.


sábado, 27 de julho de 2013

Maldito seja!

Demitida! Você está demitida!Foram as últimas palavras que a minha chefe gritou naquele fim de tarde. Juntei minhas coisas em uma caixa e vivi aquela cena clichê hollywoodiana do personagem "demitido-fodido" de filme. A volta por cima? Não tem! Quem me escreveu esqueceu de um pouco de sorte e da dignidade também. O fato é que eu não tinha dignidade suficiente pra dar a volta por cima. Eu tinha preguiça, muita preguiça.

Coloquei tudo dentro do meu Peugeot 1.7, a única coisa com algum valor que meu pai me deixou, nosso único elo de ligação. Foi no Peugeot que contei a ele que sou lésbica e foi nele que ele me deixou pra nunca mais voltar. Então quando ele morreu me chamaram e disseram: “Ele deixou o carro pra você”. Lembro-me de ter rido por quase cinco minutos e pensei: “ Uma coisa tínhamos em comum, humor negro.” Desde então venho transando com todas as garotas que passam pela minha vida, pelo menos uma vez dentro dele. Acho que é uma maneira de gritar o que ficou preso na garganta na noite em que ele me deixou pra sempre, ali naquele carro, sem dizer nada. Era a maneira de gritar: “foda-se seu velho hipócrita!”

Deixemos os traumas do passado e vamos aos atuais. Guardei minhas coisas no carro e fui até o bar na esquina do trabalho. Bebi por umas três horas e quando cansei das cantadas baratas dos caras no bar, peguei um táxi e fui pra casa. Estava tão bêbada que não conseguia dirigir. Acho que no estado em que eu estava eu nem ao menos conseguiria encontrar meu carro.

De qualquer forma, cheguei mais cedo do que de costume. Subi as escadas me escorando nas paredes, o corredor parecia mais fundo. Fui até a porta que estava aberta, Silvia deixava sempre assim pra caso eu chegasse de porre. Eu quase sempre chegava. Quando abri a porta lá estava Silvia... Chupando nosso vizinho de porta. Sempre achei que ele tivesse tesão nela, o que não era difícil. Silvia era gostosa, extremamente gostosa e exibicionista, combinação perfeita pra deixar um cara de pau duro. Um pouco dependente, o meu tipo.

Quando vi Silvia pela primeira vez, sabia que ela serviria, sabia que ela contemplava os meus critérios sempre tão instáveis quanto eu. Ela tinha aquele sorriso malicioso, sacana e me olhava como se pedisse socorro. Interessava-me nela esse ar de personagem trágico, sofrido e que dá à volta por cima. Era o que ela fazia de melhor, até arrumar outra coisa pelo que que sofrer e dá mais uma volta por cima. Era um ciclo que nunca parava. Estávamos no mesmo nível e arriscaria dizer que pertencentes à mesma sarjeta. Mas eu era cretina e ela não. Eu era declaradamente cretina. Pensei um pouco antes de levá-la pra minha casa, mas que mal tinha? E ela foi ficando... Já fazia tempo que ela estava por lá. Enfim, era um rapaz jovem e ela vivia comigo, um casal lésbico é sempre uma inspiração pra eles.

Ele vestiu as calças rapidamente e saiu passando por mim com cara de pânico. Achei engraçado, era só um garoto. Enquanto ela se ajeitava eu me servi de mais um copo de whisky e sentei na minha poltrona. Ela começou a falar:

- Você não liga pra mim! Eu precisava de atenção!
- Chupando nosso vizinho?
- Ele é atencioso comigo.
- Porque ele queria o pau dele exatamente onde estava.
- Nem todo mundo é como você.
- Não mesmo.

Fiquei ali sentada tomando o meu whisky e ela de pé, olhando pra mim.

- Não vai falar? – Ela perguntou
- Falar o que?
- Você nunca conversa! Tá vendo!
- Não Tem o que conversar Silvia! Eu peguei nosso vizinho de porta com o pau dentro da sua boca. Acho que essa imagem vale mais do que qualquer palavra, não acha?
- Você não liga!
- Ok, vamos lá! Ele te deu atenção e você deu a ele... Bem, sabemos o que deu a ele. E ai? Foi uma troca justa?
- Adeus Laura!

Ela bateu a porta com toda força. Puxei meu maço de cigarros do bolso e quando vi não tinha mais nenhum maldito cigarro pra eu fumar. Fui pegar um pouco mais de Whisky e também não tinha mais nenhuma gota. Sem cigarros, sem bebida... Eu gritei:

- Filha da Puta!

Levantei, peguei as chaves do carro e desci. Procurei por ele! Aquele maldito carro! Sempre perdia quando eu mais precisava. Depois lembrei que havia deixado perto do trabalho. Porra! Como é que eu ia comprar cigarros e álcool agora? Já não passava mais nenhum táxi. Chorei. Sentei ali no meio fio da calçado do meu prédio e chorei. Pensei: “O emprego tudo bem, a mulher vá lá, mas sem cigarros e álcool uma hora dessas... Que porra de vida!”



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eu, ela e uma garrafa de vinho tinto.

Eu gostava daquela combinação. Eu, ela, uma garrafa de vinho... Fico com tesão só de pensar nisso. E lá estávamos nós, bebendo e flertando, sem limites, sem pudor algum. Já estávamos bêbadas e eu sabia o que ela queria, ela queria trepar! Deitei sobre a cama encostada na cabeceira, pus mais um pouco de vinho nas taças enquanto esperava por ela. Ascendi um cigarro, estava ansiosa. Embora eu conhecesse bem aquele corpo, ela sempre me parecia diferente e era isso que me mantinha interessada.

Olhei para porta e lá estava ela, me devorando com os olhos, linda naquela cinta liga preta. Gostosa, maliciosamente gostosa! Se eu fosse um homem diria que aquilo me deixava de pau duro, mas como não sou um, diria que só de olhar pra ela, eu já estava molhada. Apaguei o cigarro e fui até la,ela esperava por isso. A peguei pela cintura com força, ela deu um pequeno gemido. Mordi aqueles lábios com vontade, provocando-a e quando percebi que ela já estava completamente louca, a beijei. Sabia que a mistura do gosto do cigarro com o vinho na minha boca a excitava. Coloquei-a contra a parede, meti minhas pernas entre as dela fazendo pressão enquanto me deliciava com seus seios na minha boca. Ela gemia... Virei-a de costas pra mim, fui tirando lentamente cada ganchinho da cinta, deixando-a só de calcinha. Eu gostava daquela cena,ela semi nua, gostava quando ela ficava só de calcinha pra mim. Passei as mãos pelas costas toda e depois a língua... Isso a deixava toda arrepiada e eu gostava da sensação de dar todo esse prazer.

Fomos pra cama. Eu adorava vê-la nua ali deitada, esperando, implorando por mim.  Montei nela e escorreguei minhas mãos pra dentro da sua calcinha. Era gostoso sentir o que eu podia fazer com ela, estava completamente molhada. Os gemidos aumentavam conforme eu ia aumentando a velocidade do toque. Escorreguei os dedos um pouco mais pra baixo, penetrei. Enquanto fodiamos a expressão do rosto dela era uma das coisas mais lindas que eu já tinha visto, a mordida no lábio, os olhos fixados em mim. Ela me apertava, contorcia-se deliciosamente e era como se eu orquestrasse tudo aquilo, aquela sensação de poder me excitava. Então quando eu achava que ela estava completamente entregue, dominada, ela agarrou-me com força, me jogou na cama e montou em mim. Segurava-me os braços, me deixando sem reação e rebolava... Como rebolava! Me deixava maluca quando fazia isso. Embora a sensação de poder fosse boa, era isso que eu mais gostava nas mulheres, essa inversão. Nós éramos tudo que queríamos ser, de puta gostosa à comedora.

Me despia com urgência e me olhava com fome. Sentia-me tão desejada por aquela mulher que isso me incendiava. Meu corpo ardia só dela olhar e quando me tocava sussurrando sacanagens intermináveis, eu não conseguia me segurar, gozava aquele encontro.

Eu adorava isso e o cheiro do sexo dela que ficava impregnado em tudo, nas minhas mãos, na minha boca, no meu quarto. E eu ficava olhando aquela morena nua na minha cama, linda. Sentia por ela os melhores sentimentos do mundo e os mais sujos, os mais promíscuos também. Gostava dessa sensação inquieta e impetuosa, eu, ela e uma garrafa de vinho tinto.

terça-feira, 11 de junho de 2013

L.C

Vamos fazer sete meses e eu me lembro como se fosse ontem dos primeiros três, os melhores. Nunca fui de excessos, mas neste caso, vê-la seis dos sete dias por semana não me parecia nada ruim, pelo contrário, sentia que ela tinha muito a me dar. E deu. Deu-me nossos amigos em comum, pessoas maravilhosas que quando juntas, parecia um encontro de almas. Umas mais a fim, outras menos, mas sempre um encontro gostoso e uma troca quase viciante de experiência. Deu-me Bukowski mais intensamente, uma compreensão melhor de Dostoievski entre um encontro ou outro. Deu-me finalmente Hemingway, um desejo antigo e uma preguiça de Kafka...

E lá estava eu, entre Almodóvar, Woody Allen e Bergman. Entre Beatles, Alabama Shakes, Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Como não estar feliz? Como não achar que finalmente tudo se alinhou? Eu estava apaixonada por ela! Mas logo vieram as primeiras brigas, as primeiras discordâncias. Eu não queria que aquilo tudo acabasse, todos temos discordâncias, pontos de vistas diferentes. Procurei escutar e entender. Pensei comigo: “ Vai passar”. Mas não passou.

Do quarto mês em diante, a derrocada. Promessas quebradas, conversas e explicações intermináveis. As mesmas desculpas e o apelo emocional. Por fim, a quebra da confiança depositada, o desapontamento e a decepção. Me vi completamente desinteressada, sem sentido.Ela havia se tornado o contrario de tudo pelo que me apaixonei e aquele diferencial de que tanto gostava era frequentemente esquecido quando lhe era conveniente.


Hoje metade de mim ainda está com ela tentando achar uma razão de estar. As falsas promessas continuam, mas eu não sei mais no que acreditar. O pouco tempo que passamos longe me agrada e ela fica cada vez mais distante de mim. Penso em ir embora constantemente, às vezes rezo para que ela tenha coragem e faça isso por mim. Então eu penso naqueles três primeiros meses que senti que tinha encontrado meu lugar no mundo. Num tempo em que eu andava tão perdida, tão certa de ser incapaz de estar continuamente em um lugar, continuamente com alguém. Penso na importância que eu parecia ter pra ela, na utilidade e me sinto magoada quando nos vemos hoje por pura obrigação, quando tenho certeza de que quando eu for embora não vá fazer a menor diferença. Já não estou fazendo faz tempo.

E muitas pessoas ainda vão se apaixonar por ela, porque ela sabe se fazer apaixonante, envolvente. Tudo ao seu redor é lindo e tocante. Não culpo os que ainda estão sobre o efeito desse encantamento e nem julgo os futuros apaixonados. Talvez um dia eles se juntem ao grande grupo do qual faço parte junto com os outros muitos desiludidos e conversaremos sobre essa paixão arrebatadora e decepcionante pela linda, complexa e contraditória L.C.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Luz de Luna


Naquele dia eu soube que a amava como nunca havia amado alguém. A sua dor era a minha, o seu desespero. Mesmo sem saber ao certo o que doía, o que a desesperava. Foi exatamente nesse momento que percebi que eu ainda podia temer e temia, porque eu tinha sim o que perder. E sabia que ela me amava do mesmo jeito, mesmo com todas aquelas lembranças ruins. Ela queria! Ela queria muito!
                                             
Sentei no sofá, ascendi um cigarro e mergulhei nisso. Ela me observava com atenção. Levantou, foi até a vitrola. Fechei meus olhos e quando ouvi a voz de Chavela Vargas cantando “Yo quiero luz de luna para mi noche triste...”, os abri rapidamente. E lá estava ela, dançando feminina, segurando a longa saia que usava e olhando direto nos meus olhos, direto na minha alma.

Ela foi se aproximando e começou a se despir, com aqueles olhos fixos nos meus, eles não se perdiam. Tirou a saia, a blusa...  Montou em mim. Eu podia sentir seu tesão só pela respiração e isso me enlouquecia. Beijou-me os lábios, beijou-me os olhos, segurou com força minhas mãos. Sussurrou ao pé do meu ouvido:

- Eu te amo...

Repetia isso com emoção e me agarrava com urgência. Apertava-me contra ela, como se pudesse fazer de nossos corpos um só. A peguei com vontade, deitei-a no chão. Fiquei olhando aquela imagem por alguns segundos, ela ali deitada, nua. Os cabelos espalhados e os olhos clamando por mim. Quando a toquei, tentei mensurar o tamanho de seu desejo, mas em seguida me senti estúpida por isso. Existem coisas que não se mensuram, chega a ser criminoso tentar mensurar, perde a força e a beleza.

Voltei! Tocava e escutava os gemidos, tocava e sentia as respostas do seu corpo. Não conseguia parar, enlouqueci. Peguei-me gemendo junto. Ela gemia mais e mais até que paramos juntas numa explosão. Cai pro lado e ela deitou sobre o meu peito. Senti que aquele era o seu lugar. Então ela me sorriu com os olhos e sussurrou com felicidade:

- Eu te amo...

Ouvi o disco parando de rodar na vitrola. Aquela já não era uma noite tão triste Chavela...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ditadura moderna


Calar! Mas por quê? Isso não sai da minha cabeça. Não temos o direito de falar? De saber? Todos nós temos direitos! E não to falando só dos direitos legais. Temos direito de não concordar, de questionar, de expor... Mas calar é mais fácil! Só calar. Sem pensar! Transparência, confiança, diferencial, família... Palavras que fazem parte de um discurso bonito e demagogo, palavras usadas de uma forma tão rasa, que ao longo do tempo vão ficando fracas, vão perdendo o sentido e por fim perdem o significado. Eu gostava mais quando era: “cala a boca e faça o que eu mando!”. Era no mínimo mais genuíno, mais sincero.

As baixas são sentidas por nós e refletidas de forma triste. Não podemos nos dar ao luxo de pensar em certo ou errado, justo ou injusto. Nós precisamos e eles contam com nossas necessidades. Os subversivos não duram nem duas horas, eles precisam pagar as contas, os alugueis. O medo é constante, a tortura é psicológica. Somos bons o suficiente? Fizemos tudo certo hoje? Não podemos errar! Eu não posso errar! Já me peguei obcecada por isso inúmeras vezes e isso não faz o menor sentido. No fim, somos só números.

Na ditadura moderna, nós não somos demitidos, somos desligados como máquinas, material descartável, substituível. Somos desligados por gente que precisa tanto quanto nós, que é tão ou mais descartável, mas que mesmo assim se propõe a fazer o trabalho sujo na ilusão do “mais”. Essas pessoas não conseguem perceber que são tão frágeis quanto nós, que são tão “números” como qualquer outro.

“Falem! Estamos aqui para escutar vocês!” Cuidado! O preço de uma opinião pode ser alto demais. Tenho visto gente pagando a prestação essa conta e admiro quem tem coragem, quem não abaixa a cabeça, quem vai até o fim pelo que acredita ser justo. É bom ver que ainda tem gente que não se vende. Que precisa, mas não se vende.

Na ditadura moderna, os medos são outros, as torturas são contratuais e o tapa com luva de pelica está em alta. Mas tudo é dentro da lei. A lei do mais forte.