quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ao som de Piaf


Eu já deveria saber, assim que pus os olhos nela, que ela seria pouco comum na minha vida. Mas era impossível ter qualquer tipo de sensatez com ela por perto, me sentia incapaz. Tudo era lindo, o emaranhado dos seus cabelos, o olhar profundamente sensual, aquela pele morena e o ar malicioso que ela tinha. Tudo aquilo me seduzia.

A primeira vez que a vi, eu tomava um café no Odeon, na Cinelândia.Era agosto, então tinha também aquela brisa batendo no cabelo dela. Com uma das mãos segurava o livro que estava lendo e com a outra levava o cigarro a boca, com aquele batom vermelho que manchava, de forma sensual, a pontinha do filtro.

Isso sempre me excitou, o batom vermelho! Cigarro geralmente é algo tão masculino, mas quando uma mulher mancha de batom qualquer coisa, aquilo se torna imediatamente feminino, como se com isso elas pudessem nos roubar tudo e podem. Com apenas uma mancha de batom, podem nos roubar até mesmo a dignidade, (que o digam as golas de camisas de homens casados). Mas essa história não é sobre qualquer mulher, nem muito menos sobre qualquer mancha de batom, porque nada que ela fazia, por menor que fosse, era uma coisa qualquer. Aquela mulher era poesia em movimento.

Fui até ela e todos me olhavam incrédulos. Claro! Onde já se viu um “frangote” como eu ter a pretensão de ir falar com alguém como ela? Acontece que o “frangote” aqui foi o único que teve coragem! Não que isso fosse fazer com que ela me notasse, ou que ela não risse de tal pretensão, mas achei válido ir até lá!

- Eu poderia lhe oferecer uma bebida?

Perguntei não muito seguro e suando um pouco nas mãos. Mas disfarcei bem!

- E você tem idade pra beber garoto?
- E se eu não tiver?
- Me diga você!
- Eu ofereci o drink a você, não disse que beberia o mesmo.

Ela riu e eu notei que poderia ficar.

- Por que não se senta garoto?
- Eu não sou um garoto!
- Homem é que você não é! Não tem nem pelos quase! ( Ela disse rindo)

Tirei meu maço de cigarros do bolso, peguei um e ascendi vaidoso enquanto todos me olhavam sentado na mesa da mulher mais bonita que, provavelmente, muitos ali teriam visto. Ela me olhava interessada...

- Tem alguma coisa em você que eu gosto!
- Tem muitas coisas em você que eu gosto. (Disse inclinando-me sobe a mesa)

Ela me olhou com aquele olhar de baixo pra cima, aquele de apavorar “garotos” como eu, mas não me apavorei e isso a excitou. Ficamos ali por alguns segundos, trocando olhares. Enquanto ela me seduzia, eu a devorava. O garçom interrompeu:

- O que vai beber senhor?
- Whisky. Sem gelo, por favor!
- Quantos anos têm? (Ela perguntou com aquele sorriso sacana)
- Dezenove, faço vinte em dezembro.

A acompanhei até em casa. Por fim ela me sorriu com aquelas covinhas no canto da boca e me deu um beijo no rosto.

- Posso te ver de novo? (Perguntei)
- Vá ao café e quem sabe?! ( Ela ria)

Passei o resto daquela semana praticamente dormindo e acordando no café, mas ela não apareceu. Quando estava quase desistindo, ela sentou-se a minha mesa. Dei um sorriso.

- Pensei que não te veria mais.
- Você é meigo...

Irritei-me.

- Meigo? Não! Meigo eu não sou!
- E qual o problema de ser meigo?
- Me parece bobo e pouco atraente, quase desinteressante.
- Pôs fique você sabendo que só estou sentada aqui hoje por isso! Bobo você pareceu agora.

Ela ria como se tudo aquilo fosse sempre uma grande brincadeira pra ela. Fomos caminhar e quando paramos me roubou um beijo. Quis lhe dar outro, mas ela pediu que esperasse e foi o que eu fiz. Passamos a nos encontrar com freqüência. Ela tinha tanto e eu nada. Era só um garoto, ela estava certa! Eu tentava manter um controle, mas ela me intimidava, me paralisava, me deixava sem reação. Quis beija-la. Ela fugia as minhas investidas na mesma proporção que as provocava.

- Você sempre olha os meus seios, com ou sem decote. Gosta?
- São lindos!
- Não é a palavra que usa para descrevê-los em seus contos. (Ela se diverte diante da minha timidez)

Fui tomado então por um impulso quase animalesco, a tomei nos braços e beijei. Beijei com vontade, impetuosamente, aqueles beijos de escandalizar “sonhorinhas”. Parei.

- E então?

Ela me agarrou e beijou novamente, tão impetuosa quanto eu. Fomos para o meu apartamento, eu estava completamente excitado e nervoso, muito nervoso. É claro que já tinha tido algumas experiências, apesar de pouca idade. Ela estava longe de ser uma das primeiras mulheres com quem eu transaria. Mas era a primeira que me desapertava essa intensidade, livre de preconceitos, compromissos. Eu podia ser honesto, podia ser eu e lá no fundo daqueles olhos maliciosos, eu via admiração por isso. Não podia decepcionar. Transamos intensamente.

E assim passou a ser, era como um transe e em seguida voltávamos a ser bons amigos, os melhores. Transávamos e íamos ao teatro, transávamos e freqüentávamos bares com amigos, transávamos e íamos ao cinema, transávamos e ouvíamos boa musica, transávamos e jantávamos em bons restaurantes. Não importava o que fizéssemos, nós transávamos. Nos desejávamos muito e nos entendíamos muito bem na cama. Mas a cada dia que passava, nós conhecíamos mais, confiávamos mais um no outro. Notava isso em pequenos gestos, em pequenas confissões e de repente me ficou claro. Ela me chamou e como sempre eu estava lá para ela.


- O que aconteceu?
- Só não me deixa sozinha!
- Não deixo.

Ela me abraçou de um jeito tão urgente, tão precisado, que pela primeira vez perto dela, me sentia um homem. Achei engraçado, porque transar com ela faria de qualquer garoto um homem, mas acho que isso foi se tornando irrelevante pra mim. O sexo era incrível, mas sempre sentia em seguida aquela independência dela, ela não precisava de mim, ela não precisava de homem nenhum, era mais ela. Mas naquele dia foi diferente, senti que precisava. Então quando olhei em seus olhos, ela parecia assustada. Beijei-lhe o rosto e ela pôs a cabeça sobre o meu peito. Em seguida me puxou para o seu quarto, eu sentei na cama enquanto ela me olhava fixo e se despia pouco a pouco pra mim. Na vitrola Piaf nos regia, sublime e sensual. Nos acariciávamos, línguas, mãos, pernas, os seios dela na minha boca e ela que geralmente era tão cheia de atitude, me permitiu, se permitiu. Os gemidos me excitavam, o gosto dela... Meu coração batia disparado, gozamos juntos! Ela sorria e me olhava curiosa. Beijei-lhe com sentimento, não sei qual, mas era bom. Ela deitou em meus braços e eu fiquei ali, acariciando seu rosto, a pele macia, o emaranhado dos seus cabelos e contornando com os dedos aquela boca de batom vermelho. E via pela primeira vez naquela mulher, uma doçura que ela fazia questão de esconder por de trás de toda aquela sensualidade. Eu estava perdido. Pela manhã, enquanto ela ainda dormia, vaidoso, eu a observava nua.

- O que foi?
- Você é linda!
- E você é meigo.
- Meigo não! Eu sou homem! (Irritado)
- E que homem... (Ela respondeu maliciosamente)

Cheguei bem perto.

- É?
- Sim...

Nos beijamos e recomeçamos, depois dormi exausto. Quando acordei, ela não estava na cama. Fui até a cozinha e lá estava ela, sentada a mesa, com aquele roupão incrivelmente sexy, sem nada por baixo, fumando um cigarro daquele jeito feminino que ela tinha e o café posto na mesa. Ela nunca havia feito café pra mim.

- Tenho torradas e geléia, serve?
Eu sorri e respondi:

- É... Parece bom pra mim.



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Final


Havíamos acabo de transar, éramos desconhecidas. É incrível como depois de gozar, neste caso, tudo torna-se meio impessoal. Eu sentei na beirada da cama, peguei o maço de cigarros que deixei no criado mudo, ascendi um e encostei a cabeceira. Ela me olhava curiosa.

- O que você faz?
- Escrevo. (tragando o cigarro)
- Sobre o que?
- Sobre o que eu penso, pequenas epifanias, contos, romances...
- E tá escrevendo alguma coisa agora?
- To trabalhando em um conto, mas não consigo terminá-lo.
- E por que não?
- O caso é que não sei que fim dar. Tudo que escrevo geralmente é bem pessoal, tem tudo e todos a minha volta. Eu sou “sujeito” das minhas histórias, mas sempre soube separar, sempre soube viajar em possíveis finais irreais. Agora neste caso... Sabe quando você não consegue pensar em nada?  É como se eu fosse um livro inteiro e tem tudo isso que já escrevi, mas parei. O resto das páginas pra frente, é como se estivessem em branco. Eu não consigo ver, projetar, eu não consigo terminar.
- Sobre o que é?
- Um garoto que se apaixona por uma mulher mais velha.
- E o que isso tem a ver com você?
- Conheci uma mulher, ela não é mais velha, mas me faz sentir assim, um garoto.
- Me da um cigarro?
- Você não disse que não fumava?
- Não fumo, mas me deu vontade.
- Está bem! Pega um. (estendendo o maço)

Ela pos o cigarro na boca sem jeito nenhum, e eu ascendi pra ela. Na primeira tragada, teve um ataque de tosse. Eu ri, ela se irritou.

- Qual é a graça?
- Por que isso menina?
- Você faz com que eu me sinta uma garota.
- Você mal me conhece.
- Estou me sentindo uma garota agora.

Peguei o cigarro das mãos dela e apaguei. Ela me olhava assustada, eu a beijei. O gosto do cigarro me excitava. Beijei-lhe a nuca e a provoquei sussurrando sacanagens ao pé do ouvido. A cada sacanagem dita, ela estremecia em meus braços, completamente entregue, vulnerável a mim. Beijava-lhe os seios, a sentia com vontade. Enquanto a tocava, ela gemia baixinho e quanto mais a penetrava, mais os gemidos  aumentavam junto. E assim eu continuei até chegar ao descontrole sem pudor. E com a voz falha de tanto tesão, ela dizia ao pé do meu ouvido:

- Isso! Eu vou gozar, eu vou gozar... (repetidamente)

E gozou! Enquanto ela terminava, eu gozava vaidosa e satisfeita. Sabe, uma mulher pode acabar com a minha criatividade e às vezes eu penso até em evitá-las. O problema é que ao mesmo tempo em que me tiram a criatividade, carregam consigo algo que em instantes pode devolvê-la: A BUCETA. Talvez aquela fosse uma boa sugestão para um final, talvez fosse disso que eu precisasse. Muito tesão, uma buceta e trepar até gozar.Que final poderia ser melhor que um bom orgasmo?