terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O enterro


Matei! E matei bem matado, já não suportava mais aquele peso, aquela doença protelada, postergada... Ontem quando acordei, aconteceu de novo. Olhei para o espelho e lá estava eu, há sete anos atrás. Já aconteceu isso com vocês? Comigo acontece o tempo todo. Como num ataque de esquizofrenia, falo comigo mesma, comigo há sete anos atrás. Às vezes não me reconheço.

E como é sofrido... “É preciso findar!” Foi o que pensei ontem. Bebi uma garrafa de vodka e lembrei do cheiro dela. Mesmo eu tendo sentido tantos outros, o dela nunca se misturou. Em outro momento, talvez eu achasse isso lindo, quase uma licença poética e é, mas sendo poético ou não, hoje o que isso me provoca é um desconforto enorme. Não esqueço um perfume que já não faz mais sentido, vivo com a memória de um corpo que já não mexe com o meu e sonho com um rosto que já nem me agrada mais. São só lembranças dolorosas...

Tenho saudade mesmo é da intensidade, da vivacidade do meu “eu” há sete anos. Mas quando penso em ser exatamente aquela de novo, me da uma preguiça... Bebi mais, e tirei uma caixa com algumas fotos dela, fotos de um “nós” que me causa náuseas. Preferia quando me causavam prantos. Que seja! Peguei a caixa e liguei na funerária. Perguntei quanto custava um funeral e achei engraçado negociar uma coisa dessas, perguntar o preço de um enterro como pergunto o preço de um bibelô. Negociado o preço, fui até lá.

Geraldo era o nome do sujeito com quem falei ao telefone e lá estava ele para me receber. Um sujeito frio, austero. Falava como um mascate. Ficou irritado quando eu disse que não tinha corpo, que queria enterrar minhas lembranças.

- Tá me gozando mulher?
- De forma alguma. Quero um funeral!
- Eu não tenho tempo pra tratar com bebum, não!
- E se eu te pagar o dobro, arruma um tempo?
- O dobro?

Ele pensou um pouco e continuou:

- E como é isso moça?
- Quero velar aqui, em uma das salas e depois enterremos num lugar bem bonito.
- Mas é doida mesmo! E vai velar o que?
- Já disse, minhas lembranças!
- É cada coisa que a gente faz pra ganhar uns trocados... – Ele foi resmungando

Escolhi o caixão, era de madeira bem escura. Sem muitos detalhes, nunca fui de luxos. Falei isso pro Geraldo e ele me olhava assustado. Achei graça, um sujeito daquele tamanho com medo de alguém como eu. Acho que ele deve ter pensado que estava completamente fora de mim e estava mesmo.

Mas ele preparou tudo como eu mandei, passei a madrugada velando aquele caixão aberto com fotos, cartas e alguns objetos que eu ainda guardava.Perguntou se eu não queria que ele ficasse por ali. Isso me surpreendeu, mas eu precisava ficar sozinha.Chorei tudo que foi, tudo que não foi e tudo que podia ter sido. Bebi e fiquei às oito horas restantes sentada num canto, abraçando os joelhos contra o peito, paralisada até adormecer.

Logo pela manhã, fui acordada por Geraldo e por um menino bem novo que ia ajudar com o caixão. Fomos para a região dos lagos e lá encontramos um lugar sossegado para o enterro. Enquanto eles jogavam terra no caixão, eu pedia paz e chorava, não sei se de alivio, ou de tristeza. Quando acabamos, Geraldo veio até a mim e compadecido daquele ato desesperado, me deu um abraço. Acho que a primeira impressão que tive dele, de um sujeito frio e austero, fazia mais parte de um preconceito do que era verdade. Consolou-me como faz com quem perde um ente querido.

De repente, me deu uma vontade de rir compulsivamente e quando percebi, lá estava Geraldo, rindo junto. Até então ninguém tinha me compreendido tanto quanto aquele agente funerário. Fomos caminhando para carro como velhos amigos.

- O que acha de uma cerveja agora, Geraldo?


Nenhum comentário:

Postar um comentário