sexta-feira, 29 de março de 2013

Desde aquele café...

A primeira vez que ela me beijou foi como uma explosão pelo meu corpo. Ímpeto. Era isso! Me vi tomada por ímpeto. E aquela sensação ascendia meu corpo de uma maneira que nenhuma outra mulher conseguiu fazer. Não era a primeira vez que eu estava com uma garota, mas aquilo que ela me fazia sentir era novo e isso me pegou de surpresa. Eu achava que sabia tudo sobre as mulheres, tudo sobre como me relacionar com elas, tudo sobre como satisfaze-las sexualmente e como me satisfazer com isso, mas eu não sabia era de nada. Ela me ensinou, vem me ensinando. Talvez nem saiba. Isso desde aquele café.

Quando a vi pela primeira vez, eu sabia que queria levá-la pra cama e faria o que fosse preciso para convencê-la. Ela estava linda, vestia uma blusa preta com uma saia detalhadamente estampada. Eu não sei se ela sabe, mas eu adoro quando ela põe aquela saia até hoje. Tinha todo um movimento sensual que evidenciava seu corpo e que corpo... Mas tinha olhos doces. Essa confusão de sensualidade com doçura me intrigou de cara, me deixou curiosa e me manteve interessada. Ela falou sobre o tempo que morou na Europa e sobre teatro. Não se considerava atriz, mas tinha algo de dramático nela. Minha prepotência e aparente segurança não a impressionaram e notei no fim daquele primeiro encontro que o que ela havia gostado mesmo em mim, era justamente o que eu fazia questão de esconder, mas ela notou. Tentei beija-la, ela se esquivou, me deu um beijo no rosto e saiu correndo atrás do primeiro ônibus que passou. Eu podia ter achado que ela não havia gostado de mim, mas por algum motivo tive a sensação de que aquilo era uma coisa boa.

Não demorou muito pra que nos vissemos de novo. E lá estava ela, mais linda do que na primeira vez. Seria isso mesmo possível ou estava acontecendo algo comigo? Preferi não pensar nesse tipo de coisa, afinal de contas eu estava vivendo uma época casual depois de um longo relacionamento, mais idealizado do que real. Vimos uma exposição de arte contemporânea, conversamos um pouco sobre o quão era intrigante não termos nos visto antes com tantas amigas em comum. Eu ainda estava nervosa, ela me deixava muito nervosa.

- Por que me chamou pra tomar um café na primeira vez? – ela perguntou
- Sei lá, eu gosto de café, você disse que gostava também.
- Achei engraçado.
- Ué, mas por quê?
- Achei interessante. É que geralmente me convidam pra tomar um chopp.
- Hummm
- Que foi?
- Nada.
- Você parece nervosa, acho uma gracinha.

Nos beijamos...Quando transamos a primeira vez foi como uma descarga de energia, aquela sensação de explosão que senti no nosso primeiro beijo numa quantidade absurdamente maior. Tesão, muito tesão e a transa mais feminina que eu já tive na vida. Quando acordei, ela ainda dormia. Eu não sabia, mas ainda veria aquela cena muitas vezes. Nunca disse a ela e nem a ninguém, mas naquele dia quando acordei eu sabia que tinha acontecido algo de diferente em mim. Me encantei por cada detalhe real que ela me mostrava, cada drama contado nos meus braços, cada pedido feito entre beijos, cada confiança conquistada entre sorrisos e olhares, gestos de carinho, fúria e repetições inevitáveis.

Pode parecer prepotente afirmar que essa mulher ama o que eu sou, exatamente como sou, mas  pela primeira vez na vida eu não preciso fazer gênero com alguém. Ela não se importa que eu não goste tanto assim de Wood Allen, mesmo sendo cineasta, não julga a minha insegurança mesmo eu tendo tido tantos relacionamentos e nem a minha sensibilidade arcaica. E eu aprendi que amor não é amar cada encanto, isso é muito fácil. Amor é mais que isso! É respeitar as fraquezas, é compreender os limites, é amar mesmo naqueles dias sem paixão, é viver cada desencanto e entender que o encanto vem também de cada uma dessas coisas que fazem parte do que ela é. E eu amo o que ela é. Ela é melhor do que um ideal pelo único e simples fato de ser real.

domingo, 3 de março de 2013

Crônicas de um proletário


Acordei. Vesti a primeira roupa que vi, já não me apetecia escolher nada. Calcei os sapatos exatamente como fiz ontem e "anteontem", como tenho feito há algum tempo, exatamente naquela mesma poltrona xadrez de sempre, aquela que tenho no cantinho do meu quarto. Escovei os dentes. Gosto de fazer isso por último porque sempre como alguma coisa no meio do caminho entre me vestir e calçar os sapatos. Sentei-me na poltrona novamente.



Agora eu estou atrasada. Faço o que eu gosto, mas não faço o que eu quero. Conflito complicado esse. Tenho pensado que não sei mais não fazer o que gosto, mas me mata a ideia de que pra isso, pelo menos por hora, não posso fazer o que quero.

Então hoje eu acordei. Acordei de verdade. O que eu estou fazendo? Pensei em algum amigo que pudesse discutir Hemingway comigo enquanto bebemos, mas eu não consigo pensar em ninguém que, hoje, poderia fazer isso. Não consigo nem terminar de ler meus livros. Descobri que quanto mais próxima deles, mais distante. Ler é uma das coisas mais lindas da vida, mas como outras tantas belezas, é esmagada pelo Capitalismo selvagem que mora em algum lugar de nós, mesmo quando o negamos. 



Eu era mais culta quando era socialista, era mais reflexiva e mais pobre também. A ilusão do socialismo é muito poética, eu era uma pessoa interessante e cheia de idéias utópicas, pouco práticas, sem bases sólidas. Mas era bonito... Oh se era!


Não sei até que ponto o Capitalismo tomou conta de mim. Não serei hipócrita, ele sempre esteve comigo, mas o que me assusta hoje é não saber sua real proporção em mim. Antes eram só minhas bebidas. Sempre fui uma grande consumidora de álcool, o que me faz falta também. Agora não sei se é o álcool que me faz falta de fato, ou o que vinha junto com ele. Pessoas completamente fora dos padrões, situações inusitadas, mulheres insanas e risos e lágrimas e gritos, não de socorro, mas de êxtase. E inspiração... Eu não consigo mais. A única coisa que tenho feito é acordar e vestir qualquer coisa, calçar a porra dos meus sapatos sentada naquela maldita poltrona e fazer o que tenho que fazer.

Bem... Estou atrasada, preciso ir.