domingo, 3 de março de 2013

Crônicas de um proletário


Acordei. Vesti a primeira roupa que vi, já não me apetecia escolher nada. Calcei os sapatos exatamente como fiz ontem e "anteontem", como tenho feito há algum tempo, exatamente naquela mesma poltrona xadrez de sempre, aquela que tenho no cantinho do meu quarto. Escovei os dentes. Gosto de fazer isso por último porque sempre como alguma coisa no meio do caminho entre me vestir e calçar os sapatos. Sentei-me na poltrona novamente.



Agora eu estou atrasada. Faço o que eu gosto, mas não faço o que eu quero. Conflito complicado esse. Tenho pensado que não sei mais não fazer o que gosto, mas me mata a ideia de que pra isso, pelo menos por hora, não posso fazer o que quero.

Então hoje eu acordei. Acordei de verdade. O que eu estou fazendo? Pensei em algum amigo que pudesse discutir Hemingway comigo enquanto bebemos, mas eu não consigo pensar em ninguém que, hoje, poderia fazer isso. Não consigo nem terminar de ler meus livros. Descobri que quanto mais próxima deles, mais distante. Ler é uma das coisas mais lindas da vida, mas como outras tantas belezas, é esmagada pelo Capitalismo selvagem que mora em algum lugar de nós, mesmo quando o negamos. 



Eu era mais culta quando era socialista, era mais reflexiva e mais pobre também. A ilusão do socialismo é muito poética, eu era uma pessoa interessante e cheia de idéias utópicas, pouco práticas, sem bases sólidas. Mas era bonito... Oh se era!


Não sei até que ponto o Capitalismo tomou conta de mim. Não serei hipócrita, ele sempre esteve comigo, mas o que me assusta hoje é não saber sua real proporção em mim. Antes eram só minhas bebidas. Sempre fui uma grande consumidora de álcool, o que me faz falta também. Agora não sei se é o álcool que me faz falta de fato, ou o que vinha junto com ele. Pessoas completamente fora dos padrões, situações inusitadas, mulheres insanas e risos e lágrimas e gritos, não de socorro, mas de êxtase. E inspiração... Eu não consigo mais. A única coisa que tenho feito é acordar e vestir qualquer coisa, calçar a porra dos meus sapatos sentada naquela maldita poltrona e fazer o que tenho que fazer.

Bem... Estou atrasada, preciso ir.



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