sábado, 27 de julho de 2013

Maldito seja!

Demitida! Você está demitida!Foram as últimas palavras que a minha chefe gritou naquele fim de tarde. Juntei minhas coisas em uma caixa e vivi aquela cena clichê hollywoodiana do personagem "demitido-fodido" de filme. A volta por cima? Não tem! Quem me escreveu esqueceu de um pouco de sorte e da dignidade também. O fato é que eu não tinha dignidade suficiente pra dar a volta por cima. Eu tinha preguiça, muita preguiça.

Coloquei tudo dentro do meu Peugeot 1.7, a única coisa com algum valor que meu pai me deixou, nosso único elo de ligação. Foi no Peugeot que contei a ele que sou lésbica e foi nele que ele me deixou pra nunca mais voltar. Então quando ele morreu me chamaram e disseram: “Ele deixou o carro pra você”. Lembro-me de ter rido por quase cinco minutos e pensei: “ Uma coisa tínhamos em comum, humor negro.” Desde então venho transando com todas as garotas que passam pela minha vida, pelo menos uma vez dentro dele. Acho que é uma maneira de gritar o que ficou preso na garganta na noite em que ele me deixou pra sempre, ali naquele carro, sem dizer nada. Era a maneira de gritar: “foda-se seu velho hipócrita!”

Deixemos os traumas do passado e vamos aos atuais. Guardei minhas coisas no carro e fui até o bar na esquina do trabalho. Bebi por umas três horas e quando cansei das cantadas baratas dos caras no bar, peguei um táxi e fui pra casa. Estava tão bêbada que não conseguia dirigir. Acho que no estado em que eu estava eu nem ao menos conseguiria encontrar meu carro.

De qualquer forma, cheguei mais cedo do que de costume. Subi as escadas me escorando nas paredes, o corredor parecia mais fundo. Fui até a porta que estava aberta, Silvia deixava sempre assim pra caso eu chegasse de porre. Eu quase sempre chegava. Quando abri a porta lá estava Silvia... Chupando nosso vizinho de porta. Sempre achei que ele tivesse tesão nela, o que não era difícil. Silvia era gostosa, extremamente gostosa e exibicionista, combinação perfeita pra deixar um cara de pau duro. Um pouco dependente, o meu tipo.

Quando vi Silvia pela primeira vez, sabia que ela serviria, sabia que ela contemplava os meus critérios sempre tão instáveis quanto eu. Ela tinha aquele sorriso malicioso, sacana e me olhava como se pedisse socorro. Interessava-me nela esse ar de personagem trágico, sofrido e que dá à volta por cima. Era o que ela fazia de melhor, até arrumar outra coisa pelo que que sofrer e dá mais uma volta por cima. Era um ciclo que nunca parava. Estávamos no mesmo nível e arriscaria dizer que pertencentes à mesma sarjeta. Mas eu era cretina e ela não. Eu era declaradamente cretina. Pensei um pouco antes de levá-la pra minha casa, mas que mal tinha? E ela foi ficando... Já fazia tempo que ela estava por lá. Enfim, era um rapaz jovem e ela vivia comigo, um casal lésbico é sempre uma inspiração pra eles.

Ele vestiu as calças rapidamente e saiu passando por mim com cara de pânico. Achei engraçado, era só um garoto. Enquanto ela se ajeitava eu me servi de mais um copo de whisky e sentei na minha poltrona. Ela começou a falar:

- Você não liga pra mim! Eu precisava de atenção!
- Chupando nosso vizinho?
- Ele é atencioso comigo.
- Porque ele queria o pau dele exatamente onde estava.
- Nem todo mundo é como você.
- Não mesmo.

Fiquei ali sentada tomando o meu whisky e ela de pé, olhando pra mim.

- Não vai falar? – Ela perguntou
- Falar o que?
- Você nunca conversa! Tá vendo!
- Não Tem o que conversar Silvia! Eu peguei nosso vizinho de porta com o pau dentro da sua boca. Acho que essa imagem vale mais do que qualquer palavra, não acha?
- Você não liga!
- Ok, vamos lá! Ele te deu atenção e você deu a ele... Bem, sabemos o que deu a ele. E ai? Foi uma troca justa?
- Adeus Laura!

Ela bateu a porta com toda força. Puxei meu maço de cigarros do bolso e quando vi não tinha mais nenhum maldito cigarro pra eu fumar. Fui pegar um pouco mais de Whisky e também não tinha mais nenhuma gota. Sem cigarros, sem bebida... Eu gritei:

- Filha da Puta!

Levantei, peguei as chaves do carro e desci. Procurei por ele! Aquele maldito carro! Sempre perdia quando eu mais precisava. Depois lembrei que havia deixado perto do trabalho. Porra! Como é que eu ia comprar cigarros e álcool agora? Já não passava mais nenhum táxi. Chorei. Sentei ali no meio fio da calçado do meu prédio e chorei. Pensei: “O emprego tudo bem, a mulher vá lá, mas sem cigarros e álcool uma hora dessas... Que porra de vida!”



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